Os primeiros registros da atividade pecuária no Brasil se dão ainda no período de colonização, no século XVI, quando foram introduzidos os primeiros bovinos oriundos de Cabo Verde, numa das expedições de exploração do atual território nacional. Esta introdução foi realizada onde hoje se localiza o estado da Bahia. Já no século XVII, outros animais teriam chegado à capitania de São Vicente.

O maior valor para o gado bovino na época estava na tração, principalmente para a movimentação dos moinhos nos engenhos de cana-de-açúcar. Também eram importantes para o transporte em geral e serviram de alimento para os escravos. Além disso, com a presença da atividade açucareira na região litorânea da Colônia, o gado foi utilizado também, através da expansão de novas áreas e penetração em regiões interioranas do continente, para onde se encontra atualmente os estados de Goiás, Minas Gerais, Pernambuco e Maranhão. No século XVII, segundo alguns relatos históricos, estavam envolvidas na atividade não mais do que 13 mil pessoas e um rebanho de cerca de 650 mil cabeças.

Mais ao Sul, no atual estado do Rio Grande do Sul, como resultado da própria colonização, desenvolveu-se uma atividade pecuária baseada no uso da alimentação de pasto nativo. O crescimento do rebanho nacional foi grande no século XVII e também XIX com a chegada de animais europeus, mais adaptados às regiões sulistas.

No século XIX com a introdução do gado zebuíno no país, consegue-se condições ótimas de adaptação, principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste e daí para as demais localidades, sendo que atualmente o Brasil possui um dos maiores rebanhos comerciais de zebuínos do planeta.

Na alimentação dos animais, que sempre foi fundamentalmente à pasto, tiveram a brilhante influência da introdução de gramíneas do gênero das braquiárias que vieram para revolucionar a bovinocultura brasileira, principalmente em regiões de solos relativamente fracos nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás. O chamado "cerrado", passou a permitir uma exploração maior da atividade com sistemas que utilizavam pastagem nativa e passaram para sistemas mais intensivos, com a disponibilização destas pastagens chamadas artificiais (as que foram introduzidas), ou seja, mais produtivas, permitindo o desenvolvimento de pecuária nestas regiões.A partir do século XX, após as duas grandes guerras mundiais, criou-se a consciência de que o Brasil se transformaria num dos maiores fornecedores de carne bovina para o mundo. Assim muitos programas de incentivos, inclusive financeiros, foram criados para levar o gado zebuíno e a braquiária, numa expansão que se deu na região Norte e Centro-Oeste do país, denominadas como zonas de expansão da fronteira agropecuária. Muito mais tarde e ainda nos dias de hoje pode ser claramente observada a valorização destas terras, que um dia tiveram que ser "abertas" para a introdução da agropecuária, pois trouxeram também o desenvolvimento regional com o crescimento das cidades.Principais regiões da Bovinocultura de corte no Brasil
Não existe uma regionalização oficial da pecuária nacional. De acordo com um trabalho realizado pelos pesquisadores da Embrapa, Zenith João Arruda e Yoshihiko Sugai (1994 ), foi-se estabelecido bases de uma regionalização a qual identifica 44 regiões de produção de pecuária bovina: cinco no Noroeste do país, cinco no Norte, nove no Nordeste, onze no Centro-Oeste, nove no Sudeste e cinco no Sul. Com a nova estimativa do rebanho bovino nacional para o ano de 2003, publicado no ANUALPEC, pode-se classificar como expressivas as cinco maiores regiões do Brasil, ou seja, a região Centro-Oeste com 34,24% do rebanho nacional, a Sudeste com 21,11%, seguidos das outras três, Sul (15,27%), Nordeste (15,24%) e Norte (14,15%).

No quadro mais abaixo pode ser observado, com dados atualizados, como se comportam os números dos rebanhos por estado, ou seja, a importância de cada estado na atividade pecuária nacional. Em primeiro lugar continua o estado do Mato Grosso do Sul, seguido dos estados de Minas Gerais e Mato Grosso, não sendo menor a importância dos demais estados para suas respectivas regiões, uma vez que: "Dado o dinamismo do comportamento socioeconômico do Brasil, a atividade pecuária se expande, modifica e se desloca..." dito pelos mesmos autores anteriormente citados. Em outras palavras, cada região evolui e assim evolui também sua economia e seus interesses.Nos últimos anos, o uso de algumas tecnologias permitiu ampliar e desenvolver cada região, sendo que algumas delas são largamente utilizadas nos dias de hoje como a suplementação mineral, devido a utilização dos mais diversos sais minerais e protéicos e de vermífugo para controle de parasitos. As novas tecnologias somadas ao uso de raças e cruzamentos mais adaptados para cada região e suas particularidades (principalmente em termos de condições climáticas), permitiram um desenvolvimento mais rápido de nossa agropecuária brasileira.Outro fator de extrema importância é o avanço da agricultura sobre as áreas de pastagens neste dois últimos anos. Isso pode ser explicado basicamente pela boa perspectiva, principalmente para os grãos, para os anos que se seguem. Isso pode ser observado como o rebanho, em número, vem se comportando não só em crescimento total (apenas de 0,03% sobre 2002), mas também entre as regiões pecuárias. Em outras palavras, o rebanho diminuiu nas regiões Centro-Oeste (-0,09%), Sul (-1,13%), Sudeste (-0,65%) e cresceu na região Nordeste (0,33%) e principalmente na região Norte (2,34%). Fundamentalmente, a agricultura tem invadido áreas tradicionalmente pecuárias, como as da região Centro-Oeste, expulsando a pecuária para regiões como Nordeste e Norte. O que vem também implicando neste cenário é o aumento do custo das terras. Resta aos os pecuaristas, de certa forma, duas alternativas: intensificar a atividade ou buscar terras mais baratas, atualmente encontradas, teoricamente, nas regiões de fronteira agrícola, regiões Norte e Nordeste.Sistemas de produção e tecnologias utilizadas "dentro da porteira", alimentação e criação
No sistema de terminação, ou seja, de finalização da engorda para abate dos bovinos a pasto, os animais são alimentados basicamente pelas pastagens existentes. No caso das pastagens de inverno (geralmente de leguminosas ao invés de gramíneas), nesta época do ano, se utiliza este tipo de forrageiras para alimentar os animais dos estados mais ao Sul do Brasil, visto que o inverno (com suas características de baixa temperatura, pouca quantidade de água e incidência de luz) impede o crescimento vegetativo das gramíneas e é mais intenso no Sul. Na alimentação com base em pastagens de gramíneas, onde se utiliza largamente diversos tipos de braquiárias, se faz justificável em regiões como a região Sudeste e principalmente a Centro-Oeste. Nestas regiões, de grandes propriedades, trabalha-se muito a escala de produção, em sistemas extensivos e semintensivos.



No caso dos confinamentos, os animais são alimentados exclusivamente no cocho, desprovidos de pastoreio. Nestas situações recebem alimentação devidamente balanceada, oriunda exclusivamente de proteína vegetal. Estes sistemas mais intensivos e de maiores custos, são para animais em fase final de engorda ou também para animais de elite (de pista, de exposição). Os sistemas chamados de semiconfinamentos pode se dizer que são uma mistura dos dois primeiros sistemas, ou seja, os animais recebem pasto e suplementação (mineral e protéica), bem como ração (parte de sua dieta, além do capim) em cochos.Fazendo uma comparação dos sistemas nas diferentes regiões do Brasil, pode-se generalizar da seguinte maneira: nas regiões Centro-Oeste, Norte e parte da região Sudeste, podem ser encontrados com mais intensidade sistemas mais extensivos, ou seja, grandes propriedades com pastagem em sua grande maioria. Nas regiões Sul e Sudeste, existe uma maior presença de sistemas mais intensificados, assim como os confinamentos e semiconfinamentos, o que também é encontrado na região Centro-Oeste. Apesar do sistema de alimentação de bovinos no Brasil ser basicamente a pasto, contando com suas variações regionais, o rebanho ainda pode ser dividido por sistemas de produção, que envolvem os estádios de criação dos animais. Assim sendo eles seriam separados em: Cria, Recria e Engorda. Como o próprio nome sugere, o primeiro engloba desde a fêmea pronta para a reprodução, ou seja, apta à inseminação artificial ou cobertura via estação de monta, com touros, até a desmama do bezerro (a), que ocorre numa média dos seis aos oito meses de vida. A partir daí entra a fase de recria que estende-se desde a desmama do animal até momentos antes de adentrar para a fase de engorda. Neste ponto, o bovino encontra-se bem desenvolvido, no entanto ainda com o status de gado magro. A terceira e última fase, a engorda ou terminação, seria a fase terminal onde os indivíduos são devidamente engordados, chegando a pesos que variam de 16 a 20 arrobas (uma arroba eqüivale a 15 quilos) no caso dos machos e de 12 a 16 arrobas para as fêmeas. Os pesos de terminação variam conforme a demanda da região ou mercado a qual se destina, também de acordo com as características peculiares de terminação dos animais em cada região. Dependendo da região, os bovinos podem atingir pesos maiores do que bovinos de outras regiões.Existem produtores que atuam nos três sistemas citados, chamado de ciclo completo, como também existem os que atuam em apenas um deles ou em dois deles. A decisão de entrar, sair ou atuar nestes sistemas se deve muito à estrutura de cada fazenda e principalmente aos preços pelos quais os animais deverão ser comercializados, com isso pecuaristas podem migrar de um sistema (de engorda) para outro (de cria) quando por exemplo os preços dos bezerros estão em alta. Ou ainda quando a arroba do boi gordo está em alta, produtores se voltam, por exemplo, apenas para a fase de engorda e, deixam de atuar nas demais fases de criação do gado. Principais Raças Bovinas de Corte existentes no país
Sem dúvida nenhuma, dentre as raças bovinas presentes no Brasil, a zebuína é a de maior representatividade, sendo que a que mais predomina é a raça Nelore. Após anos e anos de seleção desta raça, o país é um exemplo de desenvolvimento deste material genético. Ainda como raças zebuínas importantes no Brasil, deve-se destacar a raça Gir, especialmente pelo seu cruzamento com a raça holandesa que resultou numa raça híbrida de dupla aptidão (carne e leite) denominada Girolando. As raças Guzerá e Brahman, são igualmente muito importantes, especialmente pelos seus cruzamentos que deram origem as raças Santa Gertrudes, Braford e Brangus.As raças zebuínas no Brasil se adaptaram por sua rusticidade e por suas características genéticas, adaptadas ao clima quente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ao sistema extensivo de criação do gado bovino adotado no Brasil. Por suas características genéticas, são raças que apresentam menor rendimento de carcaça e menor precocidade sexual que as raças taurinas, mas também apresentam vantagens interessantes, por produzirem uma carne mais magra, principalmente por se adaptarem a sistemas de produção extensivos de baixo custo.As raças bovinas de corte taurinas (ou européias), têm predominância clara na região Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) que se caracterizam pelo clima mais ameno e mais adequado as raças européias. Destacam-se nesta região as raças Hereford, Aberdeen Angus, Charolesa, Marchigiana, Chianina, Simental, Caracu, e Limousin, entre outras.Um forte crescimento nos últimos anos aconteceu nos rebanhos das raças resultantes de cruzamentos, que visam de modo geral, associar a produtividade das raças taurinas com a rusticidade das raças zebuínas. É o que acontece com as raças Canchim (raça brasileira desenvolvida a partir do cruzamento da raça Charolesa com a Nelore), Santa Gertrudes (raça resultante do cruzamento da raça taurina Shorthorn e a zebuína Brahman) e Brangus (cruzamento da raça taurina Angus com a raça zebuína Brahman).As raças sintéticas, que nada mais são do que raças obtidas a partir de cruzamentos de várias raças e aprimoradas através da seleção e que respondem a uma concepção distinta com respeito às raças tradicionais, são criadas para dar uma resposta a novas necessidades de produção, de adaptação e de mercado, onde muitas vezes as gerações e retenções do vigor híbrido são importantes para a solução dos problemas existentes. As raças sintéticas vem também ganhando espaço na pecuária de corte do Brasil, mas ainda representam parte relativamente muito pequena do rebanho nacional. Como o banco de dados da pecuária brasileira é desatualizado, de acordo com os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os números destas raças são de pequena precisão, pois as associações de criadores conseguem ter controles apenas dos nascimentos dos animais registrados. Fica então difícil se saber realmente quanto cada raça tem de participação no rebanho total nacional, haja vista que nem todos os animais de uma determinada raça são registrados.Mesmo considerando as características específicas de cada raça e seus mais variados cruzamentos, polêmicas foram criadas principalmente ao longo do ano passado. Tais questionamentos e até mesmo discussões se voltaram da forma como os principais compradores, os frigoríficos diferenciam animais zebuínos, ou seja, o nelore ou anelorado de animais oriundos de cruzamento industrial, com forte presença de sangue europeu. Em suma, o que causou certa revolta por parte dos criadores foi da forma como os compradores punem animais de cruzamento industrial em detrimento a animais nelore, menos precoces, mas com melhor acabamento de gordura. Não é objetivo deste artigo defender a raça nelore, apenas demonstrar como o mercado se comporta. No caso dos animais de cruzamento industrial, a precocidade é uma característica marcante e é exatamente neste ponto que os frigoríficos têm pressionado, ou seja, para um melhor acabamento de gordura.Balanço da Pecuária Brasileira.Para resumir o desempenho da pecuária como um todo, na tabela a seguir, observa-se através de um balanço da pecuária nacional, como se comportam os demais índices como produção, importação, exportação, engorda intensiva de gado, consumo per capita, entre outros.As exportações brasileiras de carne bovina apresentaram-se fortemente em ascensão ao longo de todo o ano de 2003. Observe abaixo que os valores mensais superaram mês a mês os números de 2002 e continuam subindo mesmo neste começo de 2004. Em 2003 foram embarcada pouco mais de 1.208 milhão de toneladas equivalente carcaça e uma receita de US$ 1,492 bilhão. Para 2004 as estimativas são, respectivamente, de mais de 1.473 milhão de toneladas e uma receita de próximo de US$ 1,879 bilhão. Assim sendo, as exportações passariam de 16% da produção nacional em 2003 para mais de 20% em 2004.Após a conquista de novos mercados a um preço de venda muito competitivo, a expansão das economias dos países asiáticos e a demanda por carne bovina mundial em crescimento são fatores que devem ser suficientes para colocar o Brasil como o maior fornecedor de carne do planeta. Aliado a isso, sendo um país em desenvolvimento, é um dos poucos territórios com áreas passíveis de expansão, seja para produção de carne, seja para a agricultura. Balanço da Bovinocultura no Brasil, Tendência de crescimento da pecuária de corte
Para finalizar deve-se observar que, o Brasil passou por grandes movimentos de crescimento do rebanho nos anos setenta, com taxas de 1,5% ao ano, passando para 0,57% ao ano nos anos oitenta. Esse crescimento mais modesto nos últimos anos se deu em função de fortes ganhos de produtividade ao longo do tempo que garantiram crescimento da produção sem crescimento do rebanho. Isso não quer dizer que o desenvolvimento da pecuária como um todo está desacelerando, apenas mudando a forma como acontece, ficando mais eficiente. Pode-se dizer que o agribusiness da carne bovina, ainda em franco desenvolvimento e com sua essencial presença na área de expansão da fronteira agrícola, demonstra excelente potencial para incorporação de novas técnicas, além de toda uma rede de insumos e prestação de serviços voltada para a pecuária de corte. O potencial de crescimento no presente e no futuro de pelo menos as próximas duas décadas é excelente e se devidamente aproveitado deve ser um importante vetor no crescimento econômico e social do Brasil.


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